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Insônia: quando o corpo quer descansar, mas a mente não consegue desligar

  • Foto do escritor: Volmir Andrioli
    Volmir Andrioli
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura

Dormir deveria ser um processo natural. O corpo desacelera, a mente reduz o estado de alerta e, aos poucos, entramos em um ciclo de recuperação física e mental. Porém, para muitas pessoas, é justamente quando a casa fica silenciosa e o dia termina que os pensamentos parecem aumentar.

A pessoa deita cansada, mas não consegue dormir. Ou adormece e desperta várias vezes durante a noite. Em outros casos, acorda muito antes do horário e não consegue voltar a dormir.

A insônia não possui uma única causa. Ela pode estar relacionada a fatores emocionais, comportamentais, fisiológicos, ambientais e, para algumas pessoas, também a experiências interpretadas dentro de uma perspectiva espiritual.

Entender essa diferença é importante porque tratar apenas o sintoma sem investigar sua possível origem pode fazer com que o problema continue se repetindo.

Quando podemos falar em insônia?

Uma noite mal dormida ocasionalmente é comum. Preocupações, viagens, mudanças na rotina ou acontecimentos importantes podem alterar o sono temporariamente.

O problema merece mais atenção quando a dificuldade para dormir começa a se repetir e interfere no dia seguinte, provocando cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração, baixa produtividade ou alterações emocionais.

Na insônia crônica, a dificuldade para iniciar ou manter o sono costuma ocorrer pelo menos três vezes por semana durante três meses ou mais, apesar de existir oportunidade adequada para dormir.

Mas não é necessário esperar três meses para procurar ajuda. Se o sono estiver prejudicando sua qualidade de vida, vale investigar.

As causas emocionais da insônia

Em muitos casos, o problema começa muito antes de a pessoa colocar a cabeça no travesseiro.

Durante o dia ela permanece ocupada, trabalhando, conversando, resolvendo problemas e cumprindo obrigações. Quando chega a noite e os estímulos externos diminuem, aquilo que foi sendo acumulado emocionalmente pode ganhar espaço.

A ansiedade é uma das causas mais comuns.

A mente começa a antecipar situações:

“E se alguma coisa der errado amanhã?”

“Como vou resolver aquele problema?”

“Será que tomei a decisão certa?”

“E se acontecer aquilo que estou temendo?”

O corpo está na cama, mas a mente continua vivendo o dia seguinte.

Também existe o movimento contrário: em vez de viajar para o futuro, a pessoa retorna constantemente ao passado.

Ela revive conversas, conflitos, erros, perdas, rejeições e situações que gostaria de ter vivido de outra maneira.

Nesse momento, o cérebro pode interpretar pensamentos como sinais de ameaça. O organismo permanece em estado de alerta, dificultando justamente o processo fisiológico necessário para entrar no sono.

Estresse e hiperatividade mental

Existe uma frase muito comum entre pessoas que sofrem com insônia:

“Meu corpo está cansado, mas minha cabeça não para.”

Isso descreve bem um estado de hiperativação.

A pessoa passa o dia sob pressão, preocupação, cobrança ou excesso de responsabilidades. Mesmo quando a situação externa termina, o organismo pode continuar funcionando como se ainda precisasse resolver alguma coisa.

O coração pode permanecer mais acelerado, a musculatura mais tensa e os pensamentos mais rápidos.

Quanto mais a pessoa tenta obrigar-se a dormir, maior pode ficar a frustração.

Surge então outro pensamento:

“Preciso dormir agora porque amanhã tenho que acordar cedo.”

O sono deixa de ser um processo natural e se transforma em uma tarefa.

E poucas coisas dificultam tanto o sono quanto a obrigação de dormir.

Feridas emocionais, insegurança e necessidade de controle

Algumas pessoas permanecem constantemente em estado de vigilância.

Mesmo quando tudo parece tranquilo, existe internamente uma sensação de que algo pode acontecer.

Experiências difíceis, ambientes familiares imprevisíveis, relações conflituosas, perdas, cobranças excessivas ou períodos prolongados de insegurança podem contribuir para que o sistema nervoso desenvolva um padrão de alerta elevado.

Isso não significa que toda insônia tenha origem em traumas. Mas determinadas experiências emocionais podem contribuir para a dificuldade de relaxar e sentir segurança suficiente para “desligar”.

Também é comum existir uma forte necessidade de controle.

Durante o dia a pessoa tenta controlar trabalho, família, dinheiro, relacionamentos e futuro.

À noite, tenta controlar até o sono.

Mas o sono acontece justamente quando o controle diminui.

Causas fisiológicas também precisam ser investigadas

Um erro seria considerar toda insônia um problema emocional.

Existem diversas condições físicas capazes de interferir diretamente na qualidade do sono.

Alterações hormonais, menopausa, dores crônicas, refluxo, problemas respiratórios, alterações da tireoide, síndrome das pernas inquietas, apneia do sono e outras condições podem provocar despertares frequentes ou dificuldade para adormecer.

Alguns medicamentos também interferem no sono.

Cafeína, nicotina, bebidas energéticas e álcool podem alterar significativamente a arquitetura do sono. Embora algumas pessoas sintam sonolência após consumir álcool, ele tende a fragmentar o sono ao longo da noite.

Por isso, insônia persistente merece avaliação adequada.

O celular também pode estar treinando seu cérebro para permanecer acordado

Existe ainda um fator moderno extremamente importante.

Muitas pessoas passam o dia inteiro recebendo estímulos e continuam fazendo isso até segundos antes de dormir.

Celular.

Vídeos.

Notícias.

Redes sociais.

Discussões.

Mensagens.

Trabalho.

Quando finalmente apagam a luz, esperam que o cérebro mude instantaneamente de um estado intenso de estimulação para um estado profundo de relaxamento.

Para algumas pessoas, essa transição simplesmente não acontece tão rápido.

Além da exposição à luz durante a noite, o próprio conteúdo consumido pode manter a mente emocionalmente ativada.

E as possíveis causas espirituais?

Algumas tradições religiosas e espiritualistas interpretam determinadas experiências noturnas como relacionadas à espiritualidade, ao ambiente energético, à sensibilidade individual, às práticas religiosas ou à sensação de presença espiritual.

Para quem possui essa visão de mundo, práticas como oração, meditação, leitura espiritual ou rituais tranquilos podem produzir sensação de segurança, acolhimento e relaxamento antes de dormir.

É importante, porém, fazer uma distinção.

A ciência não possui evidências que permitam afirmar que insônia seja causada por obsessores, energias negativas, entidades ou fenômenos semelhantes.

Portanto, uma interpretação espiritual não deve substituir a investigação de causas médicas, psicológicas ou relacionadas ao estilo de vida.

Se alguém estiver ouvindo vozes, vendo coisas que outras pessoas não percebem, apresentando medo intenso, desorientação ou alterações importantes de comportamento, é especialmente importante buscar avaliação profissional em vez de atribuir automaticamente a experiência a uma causa espiritual.

Espiritualidade pode fazer parte do cuidado de quem acredita nela. Mas ela pode coexistir com medicina e saúde mental.

O ciclo perigoso do medo de não dormir

Depois de várias noites ruins, pode acontecer algo curioso.

O problema deixa de ser apenas a insônia.

A pessoa começa a ter medo da insônia.

Durante a tarde já pensa:

“Será que hoje vou conseguir dormir?”

Ao entrar no quarto:

“Tomara que eu não passe a noite acordado novamente.”

Ao olhar para o relógio:

“Já são duas horas e eu ainda não dormi.”

Nesse momento, a própria cama pode começar a ser associada a preocupação, esforço e frustração.

É por isso que uma das abordagens mais eficazes para insônia persistente é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia, conhecida como TCC-I, que trabalha justamente pensamentos, hábitos e associações que mantêm o problema.

O que fazer antes de dormir?

O objetivo não deve ser “apagar a mente”.

Quanto mais você tenta impedir um pensamento de aparecer, mais atenção acaba dando a ele.

O objetivo é ensinar gradativamente ao organismo:

“O dia terminou. Não preciso resolver mais nada agora.”

Algumas estratégias simples podem ajudar:

  • Faça uma transição de 30 a 60 minutos antes de dormir. Reduza trabalho, notícias, discussões e estímulos intensos. Diminua a iluminação e crie uma rotina previsível.

  • Experimente a respiração diafragmática. Inspire suavemente pelo nariz por aproximadamente 4 segundos e expire lentamente por cerca de 6 segundos. Repita sem esforço durante alguns minutos. A expiração mais longa ajuda muitas pessoas a reduzir a ativação corporal.

  • Use relaxamento muscular progressivo. Contraia suavemente uma região do corpo por alguns segundos e depois solte completamente. Comece pelos pés e avance lentamente até rosto e cabeça.

  • Faça um “descarregamento mental”. Antes de deitar, escreva tudo o que está ocupando sua cabeça. Ao lado de cada preocupação, anote algo como: “Vou pensar nisso amanhã às 9h”. Isso ajuda a separar horário de resolver problemas do horário de dormir.

  • Se não estiver dormindo, não transforme a cama em campo de batalha. Quando perceber que está totalmente desperto por bastante tempo, levante-se, permaneça em ambiente pouco iluminado e faça algo tranquilo. Retorne quando o sono aparecer.

  • Evite verificar o relógio repetidamente. Saber quantas horas faltam para acordar costuma aumentar ansiedade e piorar o processo.

  • Mantenha horário relativamente regular para acordar. O horário de despertar ajuda a organizar o ritmo circadiano.

  • Use uma prática de atenção corporal. Perceba lentamente pés, pernas, abdômen, peito, braços e rosto, observando as sensações sem tentar modificá-las.

  • Se a espiritualidade fizer parte da sua vida, use-a como elemento de serenidade. Uma oração tranquila, meditação ou leitura breve pode ajudar a criar sensação de segurança — sem substituir avaliação profissional quando houver um problema persistente.

Uma técnica simples de 5 minutos

Ao deitar, coloque uma mão sobre o abdômen.

Feche os olhos.

Inspire pelo nariz lentamente.

Perceba o abdômen expandindo.

Expire um pouco mais devagar do que inspirou.

Enquanto solta o ar, pense:

“Agora eu não preciso resolver nada.”

Depois observe mentalmente seu corpo dos pés até a cabeça.

Quando encontrar alguma região tensa, não tente forçá-la a relaxar.

Apenas perceba.

Respire.

E solte.

Se surgirem pensamentos, não lute contra eles.

Imagine apenas que cada pensamento é algo que passou pela sua mente e que poderá ser retomado amanhã.

O objetivo não é fazer o sono acontecer.

É criar as condições para que ele aconteça naturalmente.

Quando procurar ajuda

Se a insônia estiver acontecendo frequentemente, prejudicando seu trabalho, concentração, humor ou qualidade de vida, procure avaliação médica ou psicológica.

Também merece investigação quando existem roncos muito intensos, pausas na respiração durante o sono, sensação de sufocamento, movimentos desconfortáveis nas pernas, sonolência extrema durante o dia ou uso frequente de medicamentos ou substâncias para conseguir dormir.

E existe uma mensagem importante:

Insônia não é simplesmente “falta de sono”.

Às vezes ela é um sinal de que alguma coisa — no corpo, nos hábitos ou no estado emocional — precisa ser compreendida.

Quando fatores emocionais estiverem envolvidos, trabalhar ansiedade, preocupações recorrentes, medos, crenças e padrões de hiperalerta pode fazer parte de um processo mais amplo de recuperação.

Dormir melhor muitas vezes começa antes mesmo de fechar os olhos.

Começa quando corpo e mente aprendem novamente que podem reduzir o estado de alerta e descansar.

 

 
 
 

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